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Fonte: Infonet.com.br, de 22/04/2008
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Por. Cristian Góis
Já escrevi sobre este tema em semanas anteriores (Caso Isabella e os crimes da imprensa). Tinha me prometido a não render essa história por convicções pessoais. Mas diante de tantos abusos e absurdos, creio que é dever de consciência voltar a me manifestar sobre ele. Trata-se do assassinato da menina Isabella, ocorrido em 29 de março, em São Paulo, um caso de grandiosa repercussão, além do limite, e que serve para muitas análises.
O que a mídia está fazendo neste episódio, em conluio com polícia e até com um promotor de Justiça, é algo imperdoável, profundamente inaceitável e que supera todos os limites de humanidade. A criança “cai” do prédio onde estava com o pai e a madrasta na noite de um sábado. No dia seguinte, domingo, os programas de televisão e os sites de notícias já apontam o pai e a madrasta como os potenciais criminosos, sem qualquer chance de mínima defesa e sem o mínimo indício de fatos concretos.
Na segunda-feira, dois dias depois do “crime”, a política, ainda sem qualquer indício real, reúne imprensa e diz que os dois (pai e madrasta) são os principais e únicos fortíssimos suspeitos. Estava ali um prato cheio para a imprensa sensacionalista e de resto para toda mídia. Os suspeitos aparecem em jornais e programas de rádio e tv como culpados e são tratados como monstros que devem ser justiçados, isto é, executados, mortos, sem meias palavras. É decretado sigilo no caso, mas a cada segundo tem um laudo e um depoimento exclusivo dado à policia nas mãos de todo Brasil.
A divulgação do caso é medida por institutos de pesquisa e bate altos picos de audiência, derrotando novelas e programas de auditório. Como os enredos das novelas já estavam prontos, mudam-se então os programas de auditório que passam a dramatizar o caso Isabella. Os editores de jornais, emissoras de rádio e tv e de internet perceberam que estavam nas mãos com um filé mignon para faturar com a audiência: o cadáver de uma menina de cinco anos e o envolvimento direito do pai e madrasta em seu assassinato.
Como abutres insaciáveis, jornalistas são deslocados para cobrir em regime de plantão absoluto cada passo da história. Com câmeras e microfones ligados 24 horas, a tragédia familiar acaba se tornando uma novela, um reality show. Mas o segredo macabro do sucesso e do aumento da audiência não é apenas acompanhar os fatos à distância, não vale somente noticiar. Como se a história fosse um Big Brother, a mídia invade casas, intimidades de pessoas, interfere diretamente nas ações policiais, produz laudos e perícias, coloca escutas, mente, omite, desinforma, e principalmente chama a participação do público para a execução de dois suspeitos.
As movimentações de jornalistas e dos “curiosos” nas casas dos suspeitos e nas delegacias são exatamente idênticas ao desfecho semanal do BBB da rede Globo, quando os participantes são eliminados sob a euforia do público. Assim, o mundo podia pegar fogo, mas o que importa para a mídia é a audiência do caso Isabella, que já já acaba e outro fato entre nessa roda viva absurda. No mesmo final de semana do crime daquela menina, dez pessoas foram assassinadas numa favela do Rio de Janeiro “num confronto com a polícia”. Um dos mortos foi por coincidência uma menina de três anos, Bárbara Silva. Uma bala perdida. Mas esse fato sequer ganhou o status de notícia pela mídia. Nada disso importa, o que vale é o caso Isabella e os pontos na audiência.
O resultado é que, com a cobertura da morte da menina Isabella, a audiência dos telejornais cresceu até 46% na primeira quinzena deste mês. A informação é da coluna Outro Canal, de Daniel Castro, na Folha de S. Paulo. A audiência do "Balanço Geral", da Record, cresceu 25%. O programa tinha em seu cenário uma cama, como se fosse a de Isabella. Já o "Fala que Eu Te Escuto", da Igreja Universal, "reconstituiu" o crime com atores. No "Jornal Nacional", a cobertura chegou a ocupar 15 minutos e 20 segundos na edição do dia 15 de abril, o equivalente a 37% do telejornal. A Globo mobilizou 18 repórteres, oito produtores e 20 cinegrafistas para cobrir o caso. O “Jornal Nacional” também montou um quatro virtual para que o público pudesse sentir o clima do crime.
Como as pessoas que assistem o BBB acabam assumindo paixões e ódios pelos participantes, assim é o caso Isabella. Estimulados diretamente pela mídia para externarem sentimentos de revolta, indignação, intolerância, centenas de pessoas são chamadas às portas das casas dos suspeitos e delegacias com o desejo de vingança para matar, executar, eliminar o casal. Vale até usar a religião para justificar a violência. Muitos rezavam pela morte dos “criminosos” ao mesmo tempo de acendiam velas pela alma da menina. Ontem, por exemplo, aproveitando a onda das audiências, o padre Marcelo Rossi entra em jogo e faz uma gigantesca missa para prestar solidariedade a família da menina. Leva para o show cantores e atores, como Xuxa. Que vergonha!
É claro que os indícios apontam o casal como responsável pela morte de Isabella. É claro que todos desejam justiça, esclarecimento dos fatos, prisão e condenação dos envolvidos. É claro que o grau de impunidade gera desconfiança. Mas daí mover uma campanha antecipatória dos fatos, transformar o caso numa novela forçando fatos e situações, e convocar, direta e indiretamente, as pessoas para agir na execução sumária de suspeitos é ultrapassar os limites de humanidade. As pessoas que têm um pouco de bom senso não podem aceitar isso. Vale tudo isso (inclusive matar fisicamente pessoas) por conta de audiência, que por sua vez, resultam em mais anunciantes e mais verbas publicitárias, tudo sem limite? Claro que não. |